A biblioteca de Sigmund Freud e a mudança de neurologia para psiquiatria e psicologia
Sigmundo Freud (1856-1939) permanece como um dos médicos mais célebres e controversos do século XX, principalmente no contexto da psicoanálise. Porém, ele começou sua carreira médica como pesquisador de laboratório e neurologista clínico, que o levou a obter o direito de visitar o mais famoso neurologista da época, Jean-Martin Charcot, com quem ele passou 4 meses em Vienna, entre 20 de outubro de 1885 e 23 de fevereiro de 1886. Histeria e hipnotismo eram os tópicos principais do atendimento de Charcot. É obvio que o subsequente entusiasmo de Freud por neuroses e psicologia se iniciaram neste período.
Na verdade, ele apresenteu seu primeiro artigo com este tema em 1986, logo após seu retorno de Vienna. Freud definia a si mesmo como um “rato de biblioteca” e relatava que livros eram seu “prato predileto,” até mesmo reportando um caso no qual ele ficou totalmente sem dinheiro após uma compra de livros. Sua biblioteca pessoal, a qual está preservada majoritariamente em 4 instituições públicas, foi recentemente indexada. É uma fonte de informação fascinante sobre os interesses profissionais e pessoais de Freud. A parte francesa do século XIX (maioria de 1880-1890) não foi ainda especificadamente estudada, mas constitue um testemunho único da irreversível mudança de Freud de um pesquisador e neurologista clínico, para um psicólogo e psiquiatra.
Para entender essa mudança de Freud eu revisei todos os títulos da biblioteca pessoal de Freud, agora disponíveis para consulta. Uma contagem recente mostra que sua biblioteca pessoal contém 3.725 livros identificados (2.731 com tópicos médicos), os quais 67% destes estão agora no Museu de Freud de Londres (London Freud Museum), e 150 itens ainda estão em mãos privadas. No geral, 397 (10.7%) estão na França, e 345 (9.3%) têm tópicos neurológicos. A maior parte dos neurológicos foi deixada em Vienna quando ele emigrou para a Inglaterra em 1938, por questôes de espaço e provavelmente por causa de seu interesse baixo, em comparação com outros temas. Eu pesquisei e fui atrás destes livros, que agora estão a sua maioria em posse de instutuições públicas dos Estados Unidos.
Não é impossível que a única razão pela qual Freud tenha mudado seu foco para histeria seja devido a sua observação da fama de Charcot relacionada a essa condição. Porém, sua estadia com Charcot foi crítica em estimular em Freud o interesse, que duraria sua vida inteira, em psicologia, também devido a análise de pacientes histéricos reportada em grande parte de sua biblioteca. A paixão auto-declarada de Freud por livros reflete bem sua transformação, a qual o trouxe de um laboratório de experimentos de histologia, para estudos anatomo-clínicos relacionados a neurologia, e então para uma neurologia teórica-ética (incluindo modelos de histeria), antes dele finalmente deslanchar na virada do século, com a psicoanálise, sem mais retornar a neurologia.
Neurology 2011; 77 ; 1391
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