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Pais e médicos devem ficar atentos para "brincadeira de enforcar" entre jovens



Pais e médicos devem ficar atentos para "brincadeira de enforcar" entre jovens<!--/titulo-->

O paciente era alto; suas pernas estendidas até a beirada da mesa de operação, o peito pouco mais largo que os quadris de um adolescente de 16 anos, o rosto coberto de espinhas e uma pelugem de pêssego.
Ele se parecia com muitos outros garotos que eu conheci na escola, pensei. Então, os outros cirurgiões e eu começamos a operação para remover fígado, rins, pâncreas, pulmões e coração do garoto morto.

Sabíamos que os órgãos estariam em perfeito estado. Ele tinha sido um adolescente saudável. A causa da morte não foi nenhum acidente de carro ou moto, terrível e mutilador. O garoto tinha se enforcado e não houve tempo para salvá-lo.

Embora eu já tivesse operado algumas vítimas de suicídio, nunca havia visto um jovem garoto que tinha escolhido morrer dessa forma. Perguntei a uma das enfermeiras que havia passado um tempo com a família sobre as circunstâncias da morte. Ele estava deprimido? Ninguém nunca suspeitou de nada? Quem o encontrou?

“Ele estava brincando de se enforcar”, disse ela.

Parei o que estava fazendo e, sem acreditar no que ouvia, me virei para olhá-la de frente. “Você sabe, aquela brincadeira em que as crianças tentam ficar doidonas”, ela explicou. “Eles se estrangulam até quase perder a consciência”. Ela colocou a mão sobre o braço do menino e continuou: “O problema é que esse pobre garoto não conseguiu se desfazer do nó. Seus pais o encontraram pendurado pelo cinto preso na maçaneta da porta do quarto”.

Aquela imagem me aparece sempre que encontro outra vítima ou leio sobre as sombrias estatísticas de mortalidade associadas a essa “brincadeira”. Porém, uma coisa tem me assombrado ainda mais depois daquela noite. Como um médico que também tem pacientes adolescentes, eu não sabia nada sobre a brincadeira do enforcamento antes de cuidar de um jovem que tinha morrido disso.

Até pouco tempo atrás, havia pouca atenção por parte de profissionais de saúde em relação a essa forma particular de aventura juvenil. No entanto, o que se sabe é que jovens entre 7 e 21 anos participam dessas atividades sozinhos ou em grupos, prendendo a respiração, enforcando uns aos outros ou se pendurando num laço na esperança de sentir um barato.

Há dois anos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças relatou 82 mortes atribuídas à brincadeira de enforcar e atividades relacionadas. Este ano, o CCPD divulgou o resultado da primeira pesquisa estadual e descobriu que um em cada oito estudantes da oitava série do Oregon já tinha ouvido falar da brincadeira, enquanto mais de um em cada 20 alunos já tinha participado.

A popularidade da brincadeira de enforcar pode estar associada em parte à crença equivocada de que é segura. Num estudo recente, quase metade dos jovens entrevistados acreditava que não havia riscos associados ao jogo. Ao contrário de outros comportamentos de risco, como o consumo de álcool e abuso de drogas, onde médicos e pacientes podem aconselhar adolescentes sobre os perigos envolvidos, ninguém está dissipando esse grande equívoco sobre a segurança de quase ser estrangulado.

Por quê? Porque, assim como eu naquela sala de cirurgia aquela noite, muitos dos meus colegas não têm ideia de que essa brincadeira existe.

Este mês, no jornal Pediatrics, pesquisadores do Rainbow Babies and Children’s Hospital de Cleveland relataram que quase um terço dos médicos entrevistados não sabiam nada sobre a brincadeira de enforcamento. Esses médicos não sabiam descrever nenhum dos 11 sinais de alerta, que incluem olhos irritados e inflamados e dores de cabeça fortes e frequentes. Eles não puderam identificar nenhum dos 10 nomes alternativos da brincadeira, como “Rush”, “Macaco do Espaço”, “Dragão Roxo” e “Dança da Galinha”.

“Os médicos têm uma oportunidade única de ver e evitar isso”, afirmou em entrevista a principal autora do estudo, Dra. Nancy E. Bass, professora associada de pediatria e neurologia da Case Western Reserve University. “Mas como eles irão educar pais e pacientes se não sabem da brincadeira?”

Em situações onde um paciente pode estar considerando ou já participando de atividades de enforcamento, francas discussões sobre os sinais de alerta podem ser particularmente poderosas. “O mais triste sobre esses casos”, observou Bass, “é que todos os pais dizem: ‘Se soubéssemos o que procurar, provavelmente poderíamos ter evitado’”. Pais disseram a Bass que haviam notado lenços e gravatas torcidas no armário do filho semanas antes de sua morte.

“Eles tinham os sinais indicativos”, afirmou Bass, “mas não sabiam o que buscar”.

Abordar o tema pode ser difícil para pais e médicos. Alguns pais temem que falar sobre essas atividades possa paradoxalmente motivar os adolescentes a participar delas. “Mas esse pensamento é ingênuo”, Bass argumentou. “Os jovens podem recorrer à internet e ao YouTube para aprender sobre a brincadeira”. Em outro estudo publicado no ano passado, por exemplo, pesquisadores canadenses encontraram 65 vídeos da brincadeira do enforcamento no YouTube num período de 11 dias. Os vídeos mostravam diversas técnicas de estrangulamento e foram vistos quase 175 mil vezes. No entanto, Bass acrescentou: “Esses vídeos não dizem que as crianças podem morrer com essa brincadeira”.

Poucos médicos discutem esses tipos de atividade com seus pacientes adolescentes. “Falar sobre temas difíceis é realmente duro”, observou Bass, “quando se tem apenas 15 minutos”.

Entretanto, é ainda mais difícil quando nem o médico nem o paciente fazem ideia do que é essa brincadeira ou suas consequências fatais.

Com base nos resultados do estudo, Bass e seus colegas pesquisadores iniciaram programas de educação para médicos, particularmente os que estão fazendo residência, sobre os sinais de alerta e perigos das atividades de estrangulamento. “Essa brincadeira podem não ser tão importante quanto os outros temas que cobrimos quando conversamos com pacientes”, afirmou Bass, “mas ela pode resultar em morte. Se não falarmos com os médicos sobre essa questão, eles só vão saber sobre a brincadeira do enforcamento quando um de seus pacientes morrer”.

Pauline W. Chen - The New York Times