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A imortalidade, as células tronco e as quimioterapias de alta dose



A revista Super Interessante, edição 275 de fevereiro dee 2010, traz na página 46 a notícia de que um geneticista da Cambridge University, Aubrey de Grey, teria proposto uma injeção peródica de células-tronco para renovar o combustível do corpo humano, como uma das maneiras de viver cada vez mais e eventualmente levar a uma vida tão longa que poderia ser próxima da imortalidade. Segundo a revista, as células tronco assumiriam o papel das mais velhas, danificadas pelo processo natural de divisão celular que leva ao envelhecimento; funcionariam como um remedinho peródico que renovaria os órgãos do corpo. Um transplante periódico levaria as pessoas a terem “órgãos jovens para sempre”. Continuando, a revista Super Interessante diz que isto de certa maneira já é feito com os transplantes de células tronco realizados para diabetes e esclerose múltipla no Centro de Terapia Celular da USP em Ribeirão Preto.

Porém, existem muitos sdetalhes nesta notícia. De Grey é free lancer, não faz parte da Cambridge University, embora tenha um PhD deles. Realmente, de Grey e colegas fizeram uma proposta radical em 2004 para o tratamento de todos os tipos de cancer, composto de 2 partes. A primeira seria a eliminação da telomerase, a enzima que faz parte essencial da reprodução celular. E a segunda seriam estes transplantes de células tronco a cada 10 anos, para permitir que o corpo mantivesse sua capacidade de proliferação de células, apesar da incapacidade da telomerase. Outros autores (Ju e Rudolph, 2006) já mencionaram que a atividade desta enzima, a telomerase, e a capacidade de gerar telômeros, são associados com o declínio, que ocorre com a idade, da capacidade que as células tem de renovar tecidos e órgãos. Na maior parte dos vários tipo de células tronco, a atividade de telomerase é pequena, e os telômeros também, e esta característica deve ser uma proteção contra câncer neste grupo de células.

Telômeros são as pequenas partes mais distais dos DNAs cromossômicos, compostos de sequências TTAGGG. Conforme as células destes cromossomos vão se dividindo durante a vida, menores vão ficando os telômeros, menor sua capacidade de divisão e reprodução, até que ocorre morte generalizada daquele grupo de células. Por exemplo os cabelos de muitos homens e os ovários de todas as mulheres. Por esta razão os telômeros são considerados um relógio biológico molecular. Porém, quanto mais tempo estas células ficarem vivas, mais tempo terão para serem expostas a agentes cancerígenos presentes no meio ambiente e na alimentação (Aragona e colegas, 2000).  Estas idéias não evoluíram muito na última década ( Song e Rudolph 2009), exceto talvez na área do cancer, onde o conceito de instabilidade genômica está bem estabelecido (Artandi e dePinho, 2010). Esta instabilidade é a razão da frequência maior do cancer com a idade, com o progressivo menor grau de atividade da telomerase e o menor tamanho físico dos telômeros. Esta disfunção dos telômeros leva a duas situações fisiopatologicamente opostas, uma o envelhecimento degenerativo e outra a carcinogênese. A integridade de alguns check-points de DNA na célula é que decidem qual destes dois mecanismos predomina.

É aí que entra a sugestão radical de de Grey. Para eliminar a instabilidade genômica que permite a tremenda versatilidade dos tumores, eles sugerem eliminar a possibilidade genética de alongamento dos telômeros, combinado com um tratamento de células tronco a cada década, já que a eliminação do alongamento dos telêmeros eliminaria a capacidade de proliferação dos tecidos.  

Porém, uma busca rápida indica que Aubrey é um inglês muito alternativo, dono de uma vasta barba, filho de uma artista e de pai desconhecido, dono de uma educação nos mais elevados níveis do Reino Unido, e uma celebridade no campo do rejuvenescimento. Porém, não é médico nem tem nenhuma tradição clínica. Ou mesmo científica. É uma celebridade de idéias.

É pouco provável que Aubrey de Grey ou seu público, os interessados em rejuvenescimento, entendam que os tratamentos de células tronco autólogas hematopoiéticas tem grande parte de seu efeito através da alta dose de quimioterapia a que os pacientes são submetidos. Em especial a ciclofosfamida, utilizada em inúmeros protocolos de tratamento de doenças imunológicas e oncológicas, de esclerose múltipla a cancer de mama, é utilizada nas duas partes dos transplantes de células tronco autólogas hematopoiéticas. Na primeira fase, chamada de mobilização, a ciclofosfamida, como ou sem ajuda de um fator de crescimento de medula óssea chamado filgrastim, faz a medula óssea produzir as células tronco. Na segunda fase, outra dose, maior, de ciclofosfamida, faz parte do tratamento que produz um reset da medula óssea, com a produção de grande quantidade de células tronco. Nas duas fases muitos tecidos do corpo passam pelo mesmo reset que a medula óssea, e é muito provável que todos eles tenham um reservatório de células tronco. Assim, ocorre uma troca de tecido velho por novo no sistema gastro-intestinal, urinário, na mucosa da boca e da faringe, e nos cabelos, que caem e voltam mais fortes, de uma cor mais escura e com uma consistência maior, inclusive mais cacheados.

No tratamento chamado de Pré-transplante de Células Tronco ocorre um fenômeno semelhante, porém com menor intensidade do que no transplante, ainda assim clinicamente óbvio para os pacientes e para os profissionais que observam. Certamente é uma possibilidade muito intrigante que as quimioterapias de alta dose utilizadas para doenças imunológicas rotineiramente na UNINEURO em Curitiba possam ter um efeito de rejuvenescimento de outros tecidos além do que todos nós vemos ocorrer com os cabelos. O efeito deve ser ainda maior com as doses maiores do Renova ou do transplante, utilizando a mesmo linha direta de raciocínio. A literatura médica atual indica que alguns fatores limitantes, como a menopausa precoce e cancer de bexiga. Porém, não parece ser uma viagem totalmente desprovida de base a sugestão de De Grey.

Prof. Dr. Paulo Rogério M de Bittencourt, PhD 

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