A origem hereditária da esclerose múltipla
A origem hereditária da esclerose múltipla - Entendendo a herança nas doenças neurológicas e o efeito do pai ou da mãe
A esclerose múltipla é uma doença complexa com um fenótipo heterogêneo resultante da interação de múltiplos fatores genéticos e ambientais. Neste artigo de Neurology, Herrera et al.(2008; 71:799-803) concluem que pacientes com EM que têm pais não-afetados têm um maior número de tios ou tias maternos e paternos com EM.
Essa descoberta apóia estudos anteriores que mostraram um efeito hereditário operando através da linhagem materna. Meio-irmãos com EM com pais não-afetados eram mais suscetíveis a serem relacionados através da mãe do que do pai comum. Numa árvore genealógica multigeracional holandesa com uma forte interação entre os indivíduos (quando uma determinada população descende de um número pequeno de indivíduos de uma população maior), os 24 pacientes com EM eram mais suscetíveis a se relacionar entre si pela linha materna do que pela paterna. Entretanto, quando os pacientes com EM com pais afetados foram estudados, irmãos maternos com EM eram menos freqüentes que o esperado e irmãos paternos com EM eram mais freqüentes que o esperado. Em um grupo de indivíduos. Numa parcela da população, nenhum efeito hereditário em transmissão da doença entre pai/mãe infectado para a prole foi observada. Todos esses estudos tentaram corrigir o conhecido risco maior de EM entre mulheres. Eles não contam mais de 10% dos parentes de primeiro grau biologicamente afetados com atividade MRI na ausência da doença clínica (EM assintomática).
Quando pares de pai/mãe e filho afetados são tirados do estudo, parece haver transmissão materna de EM, e quando eles são estudados diretamente no nível do núcleo familiar,as transmissões paternas parecem alcançar ou até exceder a transmissão materna. Isso pode e dever às diferenças técnicas entre os estudos. Modelos de transmissão opostos (materna e paterna) em famílias individuais dentro de um estudo com base populacional não podem ser diluídos pela simples inclusão de várias famílias pequenas. Por outro lado, as pequenas amostras de todos os outros estudos podem introduzir pequenas fontes de enriquecimento dos modelos de heranças materna ou paterna.
A presença de uma origem hereditária sugere diversos mecanismos biológicos que podem operar diferentemente em modelos alternativos de herança de EM. Pode ser que haja um efeito limiar devido a um maior número de genes suscetíveis a penetração em uma dada linhagem. Também é possível que hajam mecanismos epigenéticos envolvidos na transmissão direta de um pai/mãe afetado. A epigenética se refere a modificações na cromatina e no DNA, tais como “histone acetylation” e “DNA methylation” que afetam a expressão genética. Essas modificações no DNA são transmitidas através de divisões celulares mas não envolvem mudanças na sequencia de DNA do organismo. Mudanças epigenéticas que ocorrem no começo da vida podem contribuir diretamente com o risco da doença por afetarem a disponibilidade do gene crítico produzir sozinho ou por modificação o risco associado com o polimorfismo de um dado gene. Em desordens de um único gene (p. ex. síndromes de Angelman e Prader-Willi) a regulação gênica é o mecanismo por trás dos efeitos hereditários diferenciados observados.
Em desordens neurológicos complexas com a EM é possível que um limiar multifatorial e modelos epigenéticos de hereditariedade operem em conjunto. A falta de concordância total para a EM entre gêmeos monozigóticos que compartilham todo seu código genético e a maior parte de sua exposição ambiental no começo da vida sugerem que há mecanismos epigenéticos potenciais operando já antes do nascimento. Apesar de ser mais fácil conceituar a exposição intra-uterina do feto como o ambiente materno no começo da vida, a exposição ambiental do pai ou até do avô paterno podem modificar um risco multigeracional de traços biológicos complexos como a obesidade. Esta é uma era nova e excitante no nosso entendimento de doenças neurológicas complexas. É provável que análises de alterações epigenéticas no DNA trarão informação independente ou em adição à informação disponível em pesquisas genéticas atuais com células sanguíneas periperais, os efeitos epigenéticos também devem operar somente no tecido-alvo, apesar de requererem o estabelecimento de grandes coleções de DNA de tecidos relevantes.
Adaptação Enfermeira Maria Leopoldina Proença
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